Campo Grande enfrenta desafios no combate à dependência de álcool

por | fev 24, 2025 | capital

O alcoolismo carrega consigo um fardo que transcende o indivíduo e atinge a sociedade em sua totalidade. Seja nas ruas, nas casas ou nos ambientes de trabalho, seus efeitos reverberam, deixando marcas na saúde pública, na economia e nas relações humanas. No Brasil, a data de 20 de fevereiro – Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo e às Drogas – reforça a urgência de ações que não apenas tratem, mas previnam a dependência química.

Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, tem se destacado nessa luta: quase 100 mil atendimentos foram realizados em 2024 pelos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) especializados no atendimento a pessoas com transtornos relacionados ao álcool e outras drogas. Os CAPS AD Guanandi e CAPS AD IV, que prestam suporte psicossocial e psiquiátrico, se consolidam como referência para aqueles que buscam reconstruir suas vidas longe do vício.

“Nós trabalhamos para que os pacientes não apenas superem a dependência, mas consigam se reintegrar socialmente. Cada atendimento é uma oportunidade de mudar vidas”, explica Gislayne Budib, coordenadora da Rede de Atenção Psicossocial da Sesau.

Mas o problema do alcoolismo no Brasil exige mais do que a oferta de tratamento. Segundo especialistas, os desafios vão desde a dificuldade de acesso a serviços até as barreiras estruturais, como racismo, machismo e a normalização social do consumo de álcool.

O Brasil tem uma das maiores redes de saúde mental do mundo – mas isso basta?

O Brasil possui um dos mais amplos sistemas públicos de atendimento a dependentes químicos do mundo. São 6.397 unidades da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), incluindo mais de 3.000 CAPS, muitos deles funcionando 24 horas por dia. O tratamento é universal e gratuito, disponível a qualquer cidadão que busque ajuda.

No entanto, especialistas alertam que há entraves no caminho. A socióloga Mariana Thibes, coordenadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), aponta a falta de profissionais especializados, como psiquiatras e psicólogos, além da necessidade de qualificação para o diagnóstico precoce do alcoolismo.

Outra barreira significativa é o estigma. Muitos pacientes demoram a buscar ajuda por receio da discriminação, o que agrava a dependência. O impacto desse atraso pode ser visto nos dados sobre mortalidade: a pandemia de Covid-19, por exemplo, aumentou as mortes por alcoolismo no Brasil e no mundo. O isolamento social e a falta de acesso a tratamento contribuíram para esse cenário preocupante.

Raça, gênero e desigualdade: o recorte social do alcoolismo

Se o acesso ao tratamento já é um desafio para a população em geral, para mulheres negras a situação é ainda mais crítica. Um levantamento citado por Mariana Thibes revela que 72% das mulheres vítimas de transtornos ligados ao álcool são negras.

Esse número não reflete um maior consumo por parte dessa população, mas sim a desigualdade no acesso aos serviços de saúde. O racismo estrutural faz com que muitas pessoas negras vivam em regiões com infraestrutura precária, poucos médicos especializados e baixa oferta de atendimento adequado.

Além disso, o estresse crônico provocado pela discriminação racial pode levar a problemas de saúde mental que aumentam o risco do abuso de substâncias. No caso das mulheres, o machismo agrava ainda mais a vulnerabilidade, tornando o alcoolismo um problema de difícil enfrentamento.

A propaganda que seduz e normaliza o consumo

A publicidade de bebidas alcoólicas é um fator central na construção da cultura do consumo no Brasil. Apesar da Lei 9.294, que impõe restrições à propaganda de álcool, os canais digitais seguem sem regulação.

Nas redes sociais, influenciadores e marcas promovem o álcool sem ressalvas. Um estudo publicado no Journal of Studies on Alcohol and Drugs em 2021 revelou que 98% das postagens sobre álcool no TikTok retratam a bebida de forma positiva, ignorando seus impactos nocivos.

O consumo precoce de álcool tem relação direta com o ambiente de exposição. A psiquiatra Olivia Pozzolo, do CISA, enfatiza a importância de campanhas educativas para que as famílias reconheçam os sinais da dependência e incentivem a busca por tratamento.

“Eu fiz bem em pedir ajuda”: histórias de superação

A luta contra o alcoolismo vai além do atendimento oferecido pelo Estado. A sociedade organizada também cumpre um papel fundamental, como mostram os Alcoólicos Anônimos (AA), que em 2025 completam 90 anos de existência e contam com mais de 3.800 grupos no Brasil.

O aposentado Bernardino Freitas, de 60 anos, encontrou no CAPS e no AA um novo caminho após ver sua vida girar em torno da bebida. “Fui procurar ajuda quando percebi que tinha passado do limite. Eu me vi da manhã até a noite nas mesas de bares, minha saúde estava indo embora e minha família sofria”, conta. Hoje, há dois anos sem beber, Bernardino participa de grupos terapêuticos e encontrou sentido na troca de experiências.

O anonimato preservado pelo AA permite que histórias como a de Ana, uma mulher carioca que começou a beber aos 12 anos, possam ser compartilhadas sem julgamento. “Eu lidava frequentemente com apagões e comportamentos desmoralizantes. O AA salvou minha vida”, diz ela, que conseguiu se formar na faculdade e construir um casamento saudável, sem o envolvimento do álcool.

O desafio contínuo da prevenção e do tratamento

Se há algo que o Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo e às Drogas evidencia, é que essa luta não se encerra em um único dia. A dependência do álcool é uma questão de saúde pública, mas também um problema social e econômico, cujas raízes se entrelaçam com a desigualdade, a falta de informação e a aceitação cultural do consumo abusivo.

O fortalecimento da rede de atendimento, a desconstrução do estigma, o enfrentamento das desigualdades raciais e de gênero e a regulação da publicidade são passos essenciais para avançar. O Brasil tem um sistema de referência no tratamento da dependência, mas ainda há muito a ser feito para garantir que ninguém precise enfrentar essa jornada sozinho.

Fonte: semanaon.com.br

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